Mapa Sound System BR Sudeste

Mapa Sound System Brasil – Dubversão Sistema de Som (SP/SP)

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As matérias / conteúdos do Mapa Sound System Brasil são mais curtas e concisas por conta da característica do projeto, que é de fato mapear o máximo possível de sistemas de som em território brasileiro e fazer um breve resumo da história de cada um por meio de depoimentos breves. No entanto, temos hoje um caso especial.

É recorrente entre a maioria dos sounds que eu já entrevistei a presença do nome de um sistema em especial, o Dubversão, e obviamente isso não ocorre à toa. Um dos mais importantes nomes da cultura sound system no país, e possivelmente o mais importante de SP por conta de sua história e seu histórico, o Dubversão precisava de um espaço maior e um formato diferente, afinal o caminho foi longo até os dias de hoje, e muitas vivências e experiências se entrelaçaram para formar tudo isso.

Conversei com os fundadores/pilares do coletivo, que tiveram total importância para a construção do que se vê hoje, não só no Dubversão em si. Abaixo, os depoimentos de Fabio (Yellow P), Mau, Miguel Don Salvatore, Ricardo Magrão e Lucas Corpo Santo Magalhães, que contam resumidamente as suas visões da trajetória dessa referência para o nosso leitor. E meu muito obrigada especialíssimo ao Paulera, que não falou aqui mas foi muito importante nesses depoimentos.

MÁXIMO RESPEITO!

(por Dani Pimenta – imagens acervo Dubversão)

Fabio (Yellow P):

“Em 2001 fizemos a primeira festa com o nome Dubversão, porém só no ano seguinte é que começaram as intervenções nas ruas. No começo não tinha uma preocupação com um nome e levava o equipamento que tinha em casa: toca-disco, mixer, mesinha de som, efeitos, microfone e umas caixas da Polivox. Isso antes do Bar do Seu Chico na Pompéia… Quem estava sempre era o Bigodón, Don Miguel, Cristopher the Lovah e a Massa Rock. Em 2003, quando passamos a fazer mais no Seu Chico, as coisas começaram a tomar maiores proporções. Foi nessa época o Magrão começou a chegar junto.

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Os primeiros passos foram difíceis pois a grande maioria ainda não conhecia o formato do sound system. Das Polivox partimos para um sistema convencional, com Crossover, equalizador, potências, 3 caixas de grave 18″ e duas caixas de 3 vias. Tocávamos em 2 vias nessa época. O passo seguinte foi a construção das caixas pretas, quando passamos a tocar em 3 vias. No final de 2005 chegou o pré-amp e deixamos de usar o crossover e o equalizador. Depois fizemos os scoops, depois adquirimos outras 2 cornetas mais apropriadas, mais tweeters, etc.

O sistema foi evoluindo com o tempo e de acordo com as possibilidades, sempre em busca de uma sonoridade própria e mais apurada. Hoje em dia o Dubversão consiste em Yellow-P na operação e seleção, o Jimmy the Dancer na logística, divulgação e, claro, na dança. Também são grandes parceiros o Seletor HF (do HF Sounds) na logística e Amauri na parte técnica.

Cyrille (in memorian)

Cyrille (in memorian)

A principal festa do Dubversão é o Java, que no fim desse ano completa 10 anos. Sempre que possível fazemos seções em espaços públicos, sempre com o intuito de multiplicar a cultura e a mensagem do Reggae. Nosso objetivo é estar sempre em busca de uma sonoridade autêntica e original.”

Mau (Bigodón):

“É meio difícil dizer quando ou como foi meu primeiro contato com essa história de sistemas de som, mas de certa forma eu posso dizer que meu primeiro contato foi com o Dubversão. A gente mesmo fazendo, desbravando por conta própria, meio que tateando, sem muita referência, sem muito em quem ou em quê se inspirar. Foi um lance que foi rolando, naturalmente.

Eu acho que dá pra dizer que pra mim essa história começou em 96 com o AFETOS, uma banda de reggae que a gente teve durante muito tempo e da qual fizemos parte eu, o Bruno Buarque, o Cris Scabello (A.K.A Cristopher The Lover), a Marietta (A.K.A MassaRock), o Décio 7, o Fabinho (A.K.A Yellow-P), entre outros. Foi com o AFETOS que a gente se envolveu mesmo com reggae, começamos a produzir nossos sons e nossas festas.

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Foi nessas festas que o Fabinho, que na época fazia a produção, começou a tocar, no começo com CDs mesmo, mas com um repertório que já era bem voltado pro dub. Ele sempre foi fissurado por Lee Perry, King Tubby, Mad Professor, Jah Shaka, etc… Foi nessa época que o Lucas (A.K.A Corpo Santo) começou a colar com a gente também. O Lucas já era um tremendo colecionador de discos, e já tinha morado um tempo na Bélgica, onde viu de perto alguns sounds e um pouco dessa cultura dub que lá sempre foi forte. Ele já tinha muito material em vinil de reggae e dub, principalmente de produção inglesa.

O Miguel (A.K.A Don Miguel Salvatore) eu conheci na FFLCH-USP em 99, no curso de Ciências Sociais. Em 2001, a gente conseguiu meio que juntos duas bolsas de pesquisa,
orientadas pelo Kabengele Munanga, e as duas acabavam tratando da circulação, do
trânsito da cultura negra pelo recorte da música. A minha pesquisa era sobre o Bumba-
meu-Boi do Maranhão, e falava um pouco como as festas populares podem transformar
as relações sociais e com o espaço urbano. E isso entre outras coisas acabou me levando pro Maranhão, onde pude ver pela 1ª vez as radiolas maranhenses que a gente já tanto sonhava conhecer. A pesquisa do Miguel era sobre o Drum’n’Bass e a circulação de informação, e acabou fazendo ele mergulhar no universo dos vinis, dubplates, e é lógico, do dub e dos sistemas de som…

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Nessa época também a gente estava bem envolvido com cultura popular e festas de rua. Além do AFETOS, a gente também participava de um grupo de percussão, o OLHO DA RUA, junto com o Eder “O”Rocha (do grupo Mestre Ambrósio), e, como o próprio nome procurava mostrar, a ideia do grupo era tocar na rua. E era na rua que rolavam os ensaios e as apresentações. Além de tocar, o Miguel começou a fazer também a produção.

Em 2001 o Fabinho e o Lucas formaram a dupla LUBIN e começaram a tocar juntos, produzir algumas festas em sampa e BH (na época o Lucas fazia faculdade em Ouro
Preto), e no fim desse ano eles fizeram uma festa com o nome DUBVERSÃO no Green Express, casa famosa pelas festas de reggae e pela imensa aparelhagem, uma verdadeira radiola maranhense. A festa contou com a participação dos Mcs Zulu, Black Alien, Funk Buia e Peter Mohamed.

No começo de 2002 o Don Miguel, o Yellow P e o MC Zulu começaram o SUSI’N’DUB, no primeiro Susi in Transe, ainda na R. Vitória no Arouche. A festa ficou dois anos nesse endereço e foi meio uma espécie de marco zero, de divisor de águas no que diz respeito à essa cena dub que começou a surgir. Foi nesse 1º Susi também que a gente conheceu o Jimmy Dancer. No começo ele trabalhava lá, mas em pouco tempo ele virou da nossa equipe e, além de esquentar a pista como ninguém, começou a trabalhar na promoção e produção das festas.

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Foi nessa época, um pouco antes, ainda em 2001, que começou a rolar de montar umas caixas de som na rua com uma vitrola e começar a tocar. A idéia era justamente levar o som, a festa pra rua. E foi meio que a consequência de tudo isso que a gente vinha fazendo. Sempre tivemos essa vontade de ocupar as ruas, transformá-las num lugar de convivência e tal.

As primeiras festas, ou os primeiros encontros, foram na praça da rua Araioses, região onde, além do Fabinho, morava também o Fezito, um figura meio hippie meio agitador
cultural que tinha uma biblioteca aberta na garagem de casa e também pirava nessas de
ocupar a rua com cultura, e colaborou nessas primeiras festas, que além da discotecagem rolava som ao vivo e outras atividades. No começo a aparelhagem era caseira mesmo, com umas caixas Polivox, um mixer e uma mesinha de som com uns efeitos. Nesse comecinho era o Fabinho (e o Lucas quando ele vinha pra Sampa) que botavam os discos e a Marietta e o Cris ficavam com o microfone. Mas como era sempre um lance descontraído, bem tranquilo, quase que só pra gente e uns amigos, eu que não era DJ mas já colecionava discos a um bom tempo comecei a levar meus disquinhos também.

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Depois as festas começaram a acontecer no bar do Seo Chico, na esquina da Coari X Barão do Bananal. Foi ali, nos 4 cantos da Pompéia, que a coisa começou a ficar mais frequente. Foi nessa época que o Magrão também começou a colar. O Magrão também já era um tremendo colecionador de discos e envolvido com a música jamaicana, e já somou umas caixas que ele tinha. E, apesar do sistema de som ainda ser “caseiro”, começamos a chamar de DUBVERSÃO SISTEMA DE SOM.

Foi na virada de 2002 pra 2003 que a gente montou mesmo as primeiras caixas (as que aparecem no logo do Dubversão), com crossover, equalizador, potências e 3 caixas de graves. Daí que a coisa começou a andar mesmo e a gente começou a tocar em outras quebradas, circular, rodar a cidade com o sistema. Aí a parada foi crescendo. Em maio de 2004, com o fechamento do 1º Susi no fatídico episódio do Eliot Ness e do gás de pimenta (nota do Groovin Mood: nessa noite, um ~~fiscal~~ do PSIU, junto com a polícia, chegou sem prévio aviso, com total truculência, mandou desligar o som e, não contente, sentou gás de pimenta no público em ambiente FECHADO.), a festa passou por uma temporada no Juke Joint com o nome de !FuEgo! até o fim do ano, e com a re-abertura do novo Susi in Transe, agora na São João, no começo de 2005 voltou por mais uns 6 meses a ser SUSI’N’DUB.

Em 2005 começamos as festas do Magrão, STAMINA DanceHall, e que no começo contava também com a participação do Black Alien e do Funk Buia nos microfones. No meio de 2005 a gente montou outras caixas, as caixas pretas que estão aí na ativa até hoje. Foi nessa época que as festas de sexta a noite começaram a rolar com o nosso sistema de som (DUBVERSÃO) e passaram a se chamar JAVA. Durante uns 6 meses o JAVA foi meio itinerante, se alternando entre o Cambridge Hotel e o Galpão Manufatura, na Francisco Mourato. Foi nessa época que o Cirilo e o Pitshú também se juntaram à família. E logo no começo de 2006 o JAVA passou a ter residência fixa no Hole Club na rua Augusta aonde ficou um bom tempo.

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Se for parar pra pensar essa parceria vai fazer 20 anos, é mais do metade da minha vida(!!). E desses 20 anos, praticamente 15 são com o DUBVERSÃO. Muita coisa. Vira família, não tem jeito…rs… Não dava pra imaginar que fosse rolar tudo isso quando a gente ainda moleque começou a se encontrar pra tocar reggae por aí. O que eu posso dizer é que nesse tempo eu tive a satisfação de poder ter trabalhado com nomes como U-Roy, Welton Irie, Mad Professor, Brother Culture, Adrian Sherwood, Martin Campbell, Afrikan Simba, DubKasm, Bush Chemists, Eek-A-Mouse, entre outros.

Lançamos os discos:

- NAÇÃO AMEAÇADA – AFETOS (2001)

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- JACUÍPE SESSIONS Vol.01 – ROCKERSCONTROL (2008)

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- BÁ SODÁ – PITSHÚ (2008)

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- CHILLING INNA BRASIL – BROTHER CULTURE (2009)

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- MASSAROCK – MASSAROCK (2010)

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E tem muita coisa pra sair que a gente ainda vai lançar, ainda temos muito material inédito.

Esse negócio de “cena” é engraçado… não existia nenhuma cena quando a gente começou. Com o AFETOS a gente acabou de certa forma ajudando a criar uma “cena reggae” no fim dos anos 90, começo de 2000. Mas quando essa cena surgiu meio que a gente não se encaixava muito nela. Acho até que o lance de substituir a palavra “reggae” e começar a usar só “Dub” (como se fosse outra coisa) foi um pouco uma estratégia de se esquivar dessa cena que não nos representava tanto. E de fato o público no começo do Susi e do DUBVERSÃO não era o público dos shows de reggae nacional que estavam rolando por aí. E de repente hoje existe uma cena soundsystem, e na verdade é essa que é a cena reggae hoje no Brasil, com festas em todos os cantos, diversos sistemas de som aparecendo e movimentando muita gente. Mas eu acho que ainda se produz pouco. É lógico que a produção vem crescendo também nesses últimos anos, mas acho que numa proporção muito menor que as crews, festas ou sistemas que estão surgindo em todo o país. O foco ainda está muito na reprodução e não na produção. Acho que acaba faltando conteúdo, por exemplo: hoje em dia vários sounds tem dubplates meio que com os mesmos cantores e com os mesmos riddins, cada um falando que aquele ou aquele outro sound é o “number one”, mas são poucos os que tem alguma produção própria. Eu acho que deveria existir mais foco nisso…

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Meus projetos hoje se relacionam com a cultura soundsystem, e eu acho que tem a ver com o jeito de fazer, com o jeito de pensar produção e circulação. Eu acredito muito nessa ideia do Faça Você Mesmo (Do it Yourself). E eu acho que muito dessa história de cultura soundsystem nasce/nasceu meio que disso, da necessidade de criar caminhos de circulação e divulgação dos sons e idéias que você acredita.

Eu continuo trabalhando com música, tocando e produzindo junto a diversos grupos e projetos, muitos de reggae e muitos outros não. Mas acho que independente do gênero ou estilo musical eu estou sempre buscando alternativas de produção e circulação que independam dos grandes meios de comunicação e do mercado em si. E isso eu acho que tem tudo a ver com essa cultura dos sistemas de som.”

Lucas (Corpo Santo):

“Minha relação com esse cenário começou na Bélgica, em 1991. Meu interesse pela cultura se deu a partir do rastafarianismo e do reggae como um todo. Conheci lá um grupo das Doze Tribos de Israel e um rasta (que nem era desse grupo), descendente de marroquinos, Dread-I, e ele tinha um pequeno sound. Pude assistir, tanto em show quanto em sound, o famoso DJ Dr. Alimantado a quem conheci e é uma figura humana do mais alto amor.  Também vi Jah Shaka & The Fasimbas e, no ano seguinte, em Londres, com seu soundsystem, no lendário The Rockett. Só muitos anos depois fui descobrindo que assisti Shaka no seu ápice, ou seja, nos anos que se seguiram ao assassinato do seu amigo e parceiro King Tubby, em fins de 1989.

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O Dubversão nasceu em 1996, a partir do que seria o LuBin (Lucas e Binho), nome dado para uma série de festas (a primeiríssima foi em Belo Horizonte) inaugurais de um pré-projeto de soundsystem. Voltei da Europa, em 92, com um material pesado em disco, artistas ainda completamente desconhecidos no Brasil, como Alpha & Omega, Tena Stelin e Zion Train, e Jah Shaka mesmo, entre outros. Além de tentativas de levarmos esse reggae para as ruas, residimos no Suzi ‘n Transe, na famigerada rua Vitória, com o Suzi ‘n Dub. Mas tive vida curta ali já que me mudei para o interior de MG no segundo semestre de 1997. Ainda participava quando vinha a SP, até 2003.

Não só a cultura soundsystem mudou muito desde meus tempos de jovem rasta, como o proprio reggae e, principalmente seu público. Tudo mudou! No Brasil isso tudo é ainda mais interessante já que há aqui uma das mais diferentes e particulares ‘culturas reggae’ do mundo. Se, por um lado, isso não é tanto novidade, São Luiz do Maranhão que o diga, por outro, principalmente nos anos 2000, o reggae se ‘soundizou’, explodindo Brasil afora, num dos mais intensos ‘revivals’ do reggae em todo o mundo! Lendário Mad Professor praticamente veio morar aqui, artistas da velha guarda começaram a voltar (depois de experiências ruins em shows enganosos nas décadas passadas), bandas começaram a ‘tocar dub’, programas de rádio voltaram ou inauguraram novas transmissões, blogs nasceram, etc.

(Yellow P)

(Yellow P)

São Paulo é sim uma das capitais dessa nova onda (que horror de termo! rs) internacional do reggae. Não acompanho tão de perto mas tenho convicção de que muitos cantores e djs jamaicanos ou ingleses ficam abismados com a febril platéia que encontram aqui. Vi um certo declínio do reggae, fora, quando voltei à Europa nos anos 2000. Quando saí do Brasil no começo dos 90, o reggae era ‘aquele’ estereótipo (ainda é, mas menos) e na Europa era apenas mais um estilo musical, ponto, pra mim era até espantoso o nível etário e a sobriedade do público que vi lá e aquele público, mais velho e tal, desaparecera!

Quando voltei pra lá em 2004, todo o estereótipo que existia aqui tava lá! rs! Então hoje acho que há um pouco mais de equilibrio, talvez um equilibrio inédito na história do reggae, ou seja: não é ‘apenas’ uma música, nem é verde-amarelo-vermelho, maconha e praia! E isso vem graças ao boom da cultura de soundsystem aqui nos anos 2000.

Miguel (Don Salvatore):

“Acho que vale dizer que cultura soundsystem vai além da cultura soundsystem de reggae, ainda que o reggae tenha sido o bojo dessa história toda. Lá pela virada dos 1990 para os anos 2000 , eu e uns amigos de colégio tínhamos um sistema de som de rua que almejava ser uma rádio itinerante. Tocava-se de tudo. Nasceu com o nome de Escape, depois passou a ser chamada de (a)tensão sistema sonoro e depois Barulho.org. Éramos muito influenciados por uma coleção da Conrad que havia lançados títulos como TAZ e a História da contra-cultura, e livros sobre pirataria do Hankim Bey.

(acervo don salvatore)

(acervo don salvatore)

Éramos também vidrados em drum and bass e principalmente em jungle. Daí já veio o gosto pelos graves e por toda essa cultura do sample, dos toca-discos, das caixas de som, das possibilidade que o digital trouxe nessa virada de século.

Foi nesse tempo que conheci o Fábio Murakami (YellowP) pois tocamos juntos num grupo de rua e percussão chamado Olho da Rua. Lá estavam também o Cris Scabello, o Maurício e a Marietta Arantes, pessoas estas que também estavam na empreitada que foi o Susi n Dub.

Fazia faculdade com o Mau e minha primeira pesquisa de campo levava o título de Drum and Bass em São Paulo: diáspora da música negra. No meio destas pesquisas o Yellow me apresenta discos de 7′ com versões que me eram familiares, muito utilizadas pelo raggajungle.

Tudo isso: nosso sisteminha que tocava de tudo, a pesquisa da faculdade, o grupo de rua e essa galera deu origem ao contato com o que hoje é o Dubversão. Se você perguntar para cada um dos membros terá a mesma história, porém com começos e origens distintos, porque o que de fato aconteceu foi o encontro de desejos pela rua e pela música, e cada qual trazia sua bagagem material e ideológica.

Não sei se foi o Yellow P que chegou até o Escape Sound System (ele tocou em festas de rua no Seo Chico no nosso sistema, e também abrimos as portas para o Susi em Transe) e a coisa se desdobrou numa ação que ele já possuía com o Corpo Santo, MC Zulu e outros, ou se fui eu que me encontrei com ele, e o que eu fazia na rua com essa outra galera que se desdobrou em Dubversão. Enfim, foi um choque de desejos como explico acima. Não existe uma história fechada, mas talvez a origem do nome tenha uma única versão.

(acervo don salvatore)

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Basicamente a Escape entrou com o primeiro sistema que se uniu ao equipamento do Yellow. Começamos a primeira festa mais rotineira de dub na cidade no Susi in Transe. Era uma festa quinzenal onde o Yellow era convidado, mas logo veio dele a ideia do Susi in Dub e conseguimos passar para as sextas. Fazia o corre de encontrar os lugares da rua, depois a rua que fazia convite para o sistema e a coisa saiu da ZO e foi para outros cantos da cidade. Eu fazia contabilidade, alguns poucos cartazes e fotos, mailing, enfim, função de produção. Era divertido: o Yellow sempre muito entusiasmado com o desenvolver da coisa, discos novos chegando a todo o momento. Aprendi bastante sobre produção porque tínhamos tudo na mão, toda a cadeia. O meio de produção e divulgação, enfim um sound!

Hoje estou bem distante desse cenário e acompanho pela internet, nos sounds montados na Serralheria pelo Pawel e algumas festas que passam por lá (nota do Groovin Mood: a Serralheria, casa que abriga um dos meus projetos, a Festa Mulheril, é do Miguel). Fico sempre super feliz, e iniciativas como o Reunion of Dub falam por sí só. Massa também porque você tem a possibilidade de ter sounds que trabalham outra discografia do reggae, outros estilos e, se for o mesmo, as caixas são outras e logo soam diferente, são outras pessoas, enfim… Vejo como algo bem de SP. Feliz por termos o RAP como algo que é a cara e vida da cidade e agora termos os sistemas que também dizem bastante sobre a cidade e conversam com um circuito territorial bem abrangente.

Meus projetos hoje não se relacionam com a cultura soundsystem. Tenho trabalhado com gestão cultural, seja em assessoria de projeto ou consultoria para governo e iniciativa privada. Tenho também a Serralheria…. da mobilidade para algo mais estático (rs). Mas uma coisa ficou: depois do sound, qualquer dificuldade que eu passe lembro de três coisas: tudo é mais leve que um sistema, que “time will tell”, e que com muito pouco você pode fazer muito.”

Ricardo Magrão:

“Entre os anos 1994 e 1995 eu passei um tempo morando em Londres, especificamente no bairro de Hackney, que tinha uma grande concentração de jamaicanos e foi um dos berços da Jungle Music, que nascia justamente naquela época. Foi lá que percebi que o reggae era muito maior e mais profundo do que as coisas óbvias que haviam chegado aos meus ouvidos até então, como Bob Marley, Peter Tosh, Jimmy Cliff e Yellowman, por exemplo. Não cheguei a me envolver com a “cena”, e nem sequer me tornei um frequentador dos bailes, mas comecei a prestar mais atenção naquilo… Me chamou muito a atenção o fato de que lá a música jamaicana ganhava o mesmo respeito que outros estilos como o jazz, a soul music, o blues, etc, enquanto que aqui ela era restrita a um pequeno gueto meio surfista da Vila Madalena. Ainda lá em Londres, conforme eu prestava mais atenção no reggae, eu reparava também na importância das frequência graves, que só eram obtidas através daquelas grandes caixas de som que eu via eventualmente pelas ruas. Não cheguei a ter uma visão completa da “cultura”, pois isso só aconteceu depois, por meio de alguns estudos, mas posso dizer que foi esse o meu primeiro contato.

Depois que voltei ao Brasil, comecei a discotecar esporadicamente. Já tinha uma razoável coleção de discos e, durante o tempo que passei fora, me interessei mais pelo assunto e comprei bastante coisa. Tocava principalmente funk, soul e hip hop, mas aos poucos comecei a incluir um pouco de música jamaicana no meu set, especialmente depois de conhecer a obra de Lee Perry e as ‘dub versions’, que naquele momento me interessaram demais. Já tocava um pouco de dancehall (Cutty Ranks, Shabba Ranks, Shaggy), mas de uma maneira mais ligada ao hip hop do que ao reggae.

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Martin Campbell no Java (2012)

Em 1999 comecei a tocar de maneira mais regular, com uma festa semanal no Jive (nota do GM: o Jive era um local super bacana ali no centro de SP, quase esquina com a Avenida Angélica, perto do metrô Marechal Deodoro). Posso dizer que foi lá que me tornei um DJ, com uma maior preocupação com a parte técnica. Nessa época eu já estava me tornando um verdadeiro fã da música jamaicana, e ela tinha uma presença cada vez maior nos meus sets, incluindo-se todas as vertentes, do ska ao dancehall, embora até aí em nenhum momento eu tenha feito uma festa exclusiva de música jamaicana.

Essa fase durou uns 3 ou 4 anos, sendo que no meio do processo o Jive inclusive mudou de endereço. E foi no endereço novo que recebi como convidado numa ocasião o Yellow P, que até então eu não conhecia pessoalmente, mas sabia que estava começando uma festa de dub, que era o Susi in Dub. A partir daí passei a tocar eventualmente com ele no Susi, e fomos nos afinando musicalmente. No começo do ano seguinte (2003), ele me convidou para participar de umas festas de rua que ele estava começando a organizar com o Bigode e o Lucas na Rua Coari, na Pompéia. Eles usavam apenas equipamento de som caseiro, e passei a levar meus discos e caixas de som também. Nessa época a Marietta (Massarock) e o Cris (Bixiga 70) também participavam da brincadeira, cantando nos riddims. As festinhas, que rolavam geralmente nos domingos à tarde, começaram a atrair cada vez mais gente, apesar da qualidade sofrível do equipamento. Por conta disso, chegou o momento em que nos reunimos com o Miguel (produtor do Susi in Dub) e decidimos que havia chegado a hora de levarmos aquela brincadeira mais a sério. Era hora de montarmos um sound system de verdade para as nossas festas de rua. Eu era mais velho que o resto dos caras, e já tinha uma situação profissional e financeira um pouco mais estável, e por conta disso ajudei a viabilizar a montagem das caixas e a compra do restante dos equipamentos. Tivemos para isso a ajuda do Wagnão, experiente técnico de som que permitiu que montássemos o som da maneira certa.

A partir da montagem do nosso primeiro sistema de som entramos naquilo que considero a melhor fase do Dubversão. Foram muitas festas de rua inesquecíveis, com um público sempre crescente e um grande processo de aprendizado pra gente. Isso durou alguns anos, até que chegou um momento em que o Yellow P transferiu a festa semanal para o Hole Club e passou a usar o nome de Java. Como a casa não tinha um sistema de som satisfatório, ele decidiu começar a usar o equipamento, que até então era exclusivo das festas de rua, para fazer esse projeto. Foi a partir daí que um projeto coletivo, generoso e inclusivo, começou a se tornar algo mais individualista da parte dele, e, por conta disso, basicamente, cada um dos integrantes originais começou a abandonar o barco. A partir daí as festas de rua começaram a se tornar cada vez menos frequentes, e mesmo a festa Java começou a perder sua relevância inicial, sendo que hoje em dia as pessoas envolvidas com o reggae e com os sound systems em São Paulo não fazem, ou pouco fazem parte do público dela. Minha última participação com o Dubversão foi na Virada Cultural de 2011.

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Como meu primeiro contato com esse contexto sound system por aqui foi o pontapé inicial do processo, não há como não ficar admirado com o crescimento da cena e a proliferação de sounds. Acredito que não haja cidade no mundo onde o número de sound systems evolua com a rapidez daqui. Isso é muito satisfatório, já que meu propósito inicial era ajudar a difundir a música jamaicana no Brasil.

Como pontos negativos vejo uma exagerada devoção ao modelo britânico de sound system em detrimento do formato original jamaicano, além do pouco interesse da maioria dos seletores em buscar uma identidade própria em suas seleções. Fico muitas vezes desanimado ao ver jovens seletores tocando exatamente os mesmos tunes que tocávamos no Dubversão há mais de 10 anos, por exemplo. O reggae é infinito, mas muita gente parece não saber disso.

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Hoje meus projetos se relacionam ao reggae, não especificamente à cultura sound system. Entendo que tem havido uma super-valorização do assunto “sound system” por aqui. Vejo garotos com pouquíssimo conhecimento musical assumindo a postura de ‘profetas’ pelo simples fato de terem algumas caixas de som. Inventou-se por aqui uma “Cultura Sound System” que absolutamente não existe na Jamaica, berço disso tudo. Nas viagens que fiz para lá a postura que observei é muito diferente, admira-se a música e os artistas, e as caixas de som são apenas caixas de som, seletores são apenas seletores. Acho que as pessoas como um todo precisam buscar mais simplicidade. Um baile de reggae é só uma oportunidade de se ouvir boa música, dançar e se divertir. Não consigo concordar com essa “cerimônia religiosa” que muitos buscam por aqui. Pra mim, quanto mais simples, melhor. Mais amor à música, menos pagação de pau pros equipamentos.”

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