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“Primavera do reggae”: 2016, ano da mulher na cena sound system

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A primavera é conhecida por ser a estação que traz o desabrochar das flores, o reflorescimento da flora terrestre, o surgimento de vida nova nos ciclos que foram finalizados entre o outono e o inverno, certo? Mas, mais do que estação, “primavera” é uma palavra que se relaciona aos momentos de transição, de eclosão, de movimentação intensa, e de mudanças que todo esse panorama acaba trazendo.

Por isso, nada mais adequado do que inserir esse termo no mês de março de 2016, mais precisamente no cenário do reggae no Brasil, e, indo mais fundo, na presença da mulher nas movimentações relacionadas ao sound system em terra brasilis. Era verão ainda, a primavera em si já tinha ido embora, mas a força e os sentimentos de várias manas apaixonadas por reggae se uniram, e entre uma semana e outra – pra ser exata, entre a primeira e a segunda semana do mês – uma série de fortes movimentações lideradas por mulheres aconteceram e ferveram a cena sound system. Pra maioria das pessoas, pode ser só mais um evento, mas para nós, que vemos de dentro pra fora, a coisa tomou outro rumo. Foi um soco no peito, uma energia gigante. E obviamente não tem volta.

Feminine Hi-Fi #1 - foto: Mel Sirks

Feminine Hi-Fi #1 – foto: Mel Sirks

Como bem resumido no artigo “As mulheres escondidas da cultura sound system“, que traduzi e soltei aqui outro dia, esse papel de espectadoras ou no máximo de coadjuvantes de uma cena intensa e produtiva sempre nos foi oferecido, ao longo de décadas, em épocas em que nem eu nem você havíamos nascido ainda. Obviamente isso sempre incomodou muito, pois, além de ter de abrir um espaço que não existia com a mesma facilidade que pros homens por muitas vezes, ainda havia aquela questão de provar que ~~~~apesar de ser mulher~~~~ a gente era capaz de entender muito bem do riscado, e de colocar muito amor nisso.

Eis que nesse março as coisas tiveram seus rumos alterados. De eternas convidadas especiais de festejos especiais comemorativos para o Mês especial da Mulher, entendemos que era hora de mais potência, de fincar a bandeira feminina do reggae em um território tão amplamente masculino. E, olha, se fosse combinado não daria tão certo. Aqui em São Paulo, eu, Renata Rude Sistah, Andrea Lovesteady e Laylah botamos na rua a festa Feminine Hi-Fi, a pioneira em formato sound system com quase 20 mulheres na linha de frente, entre seleção e mic. Em São Carlos, as Sound Sisters celebraram na festa Omega Powah, com seu sistema de som feito por mulheres. Em Recife, o Sistren Reunion deu seu primeiro passo em direção a um sonho forte e representativo. Em Fortaleza, o Projeto Reggae a Vida com Amor, encabeçado por Priscilla Delgado, reuniu diversas mulheres, como as seletoras Jordanna Thiellys, e Beth Silvério, em uma celebração imensa e linda.

Além disso, tantas outras minas, tanto no microfone quanto na seleção não param de chegar e engrossar o molho, mostrando que não falta força pra fazer tudo isso ficar cada vez maior.

Reggae a vida com amor - foto: acervo do projeto

Reggae a vida com amor – foto: acervo do projeto

Conversei um pouco com cada uma das manas citadas acima, ouvindo o que cada uma tinha a dizer sobre esse momento tão especial de mudança, e como cada uma enxerga essa quebra do paradigma na sua região.

Elizabete, projeto Roots and Culture, Fortaleza, CE:

“Sou do projeto Roots and Culture, que acontece aqui em Fortaleza no Reggae Club nas sextas feiras. No ano passado, na primeira sexta de março, eu fiz uma homenagem às mulheres na sexta, convidei uma DJ filha de um DJ antigo aqui (Manu – Emmanuelle Nascimento – filha do Dj Rubinho ), e na época ela era a única que já tocava no reggae. Foi onde invadimos mesmo. No dia, tocamos pela primeira vez eu, Jordanna e Luh , uma festa linda. Um dia antes o pessoal da quinta-feira tradicional Na Ponta da Agulha também fez homenagens com distribuição de lembrancinhas a todas as mulheres que fazem parte do movimento reggae local, até eu fui homenageada nesse dia, e foi nesse dia também que o projeto She Loves entrou em cena no reggae. Podemos dizer que todas começamos juntas. Então, fez um ano… chegou março e estamos bem equilibradas. Graças a Deus somos bem aceitas por muitos aqui. Me tornei DJ residente da sexta desde o primeiro momento, e as meninas She Loves se tornaram residentes de uma outra casa e também criaram um projeto chamado Reggae a Vida com Amor, que já fizeram duas vezes um line só de mulheres bem pesado.  

Sistren Reunion - foto: acervo do projeto

Sistren Reunion – foto: acervo do projeto

Em 2016 perdemos a Bruna Aguiar (nota do GM: Bruna faleceu no início do ano em decorrência de uma grave leucemia), que era a cabeça do projeto, e a festa passada foi em homenagem a ela. Eu, como organizadora das sextas semanais, comecei as homenagens desde fevereiro: fui colocando de duas em duas para tocar na sexta para poder pagar melhor cada uma em seu dia, e depois estávamos todas esperando para um dia só de homenagem, que foi a festa Reggae of Woman no Reggae a vida com amor, que reuniu todas as DJ´s mulheres em uma noite de homenagens, e mostrar que o lugar de mulher também é fazendo coisas que homem faz. O que eu sinto é que a cada festa dessas ganhamos o respeito de muita gente, público, donos de casas noturnas, Djs e amigos que acreditam na gente.”

Gisele Rocha, Reggae pelo Reggae / Sistren Reunion, Recife (PE)

“Aqui em Recife, a cena de DJs de reggae e sound system era inexistente há 4 anos atrás. Sempre foi uma cena de bandas. Os eventos locais eram realizados apenas com bandas e os DJs, que eram MUITO raros, apenas tocavam nos intervalos e no início, quando não havia ninguém na festa.

Então, em 2012 surgiu o Reggae pelo Reggae, quando eu e mais 4 amigos homens começamos a implantar essa cultura de DJs, no intuito de valorizar o trabalho deles. Começamos misturando banda e DJs, tentando colocar na cabeça da galera o que DJ não é intervalo e sim atração. A gente nem sabia direito o que era sound system. Realizávamos algumas vezes por ano as festas visando criar uma cultura de valorização ao DJ. Com dois anos, após estudar bastante, consegui criar, com mais duas pessoas da equipe Reggae pelo Reggae, o único sistema de som ativo da cidade (por enquanto) que é o Vietcong Promotion Sound System. Digo ativo porque existe um sistema com o qual realizamos algumas festas em parceria com ele, que se chama Semente do Bem… mas hoje em dia ele não realiza mais festas. Depois do Vietcong criado, começamos a realizar eventos do reggae pelo reggae no estilo sound system de fato. Trouxemos Jurássico no fim de 2014 e até hoje estamos na resistência.

Sound Sisters - foto: acervo do projeto

Sound Sisters – foto: acervo do projeto

O que quero dizer com essa introdução, é que a cena daqui é bastante nova, fomos criando um público e uma cultura que, até então, era inexistente. Imagina o quanto ainda é difícil para as mulheres… estive presente desde a fundação e em praticamente tudo eu era a única mulher. Até um dia desses, eu pensava que só existia eu e a Erica Natuza, que é MC do Vietcong. Foi quando encontrei uma grande colecionadora, esposa de um seletor que às vezes toca conosco. Ela já havia tocado por dois anos em uma rádio e em aniversários de amigos, mas nunca em um evento de reggae. Convidei ela pra fazer um sound comigo, mas ela não colocou muita fé na ideia e acabei deixando pra depois. Pensei que talvez tivesse ido muito rápido no convite (HAHAHA). Um tempo depois, fiz um convite “menor”, a convidei para formarmos uma dupla de seletoras, um projeto em conjunto. Ela me respondeu que ia pensar com muita calma (me contou que era tímida e esse era o problema), mas me convidou para a sua casa pra gente ouvir as nossas músicas juntas e analisar se dava pra colocar o projeto pra frente. Esse dia casou perfeitamente com a minha ideia de criar o Sistren Reunion.

Feminine Hi-Fi #1

Feminine Hi-Fi #1

Estava no ônibus, no caminho para a casa da Fabiana e pensei em fazer o evento, pensei no mês de março e nas movimentações das minas no restante do Brasil. Fiquei com muita vontade de fazer algo aqui também… pensei a todo momento nessa efervescência feminina, vibrei com cada conquista nossa e quis contribuir, de fato, com isso! A primeira pessoa que falei foi a Isadora Cavalcanti, que tinha voltado a pouquíssimo tempo do Uruguai, estava começando a sua coleção e eu tinha certeza que toparia fazer essa “pequena” homenagem ao dia da mulher. Falei pequena porque de início pensamos em algo menor, uma seleção de algumas horinhas… não deixaria de ser algo novo na cena reggae recém-criada por aqui. Além do mais, estava muito afim de aproveitar esse momento no Brasil, com tantas mulheres brilhando e conquistando seu protagonismo. Quando cheguei na Fabiana, após já criada a ideia no busão com a Isadora, contei pra ela. Ela ficou calada de início mas depois, pra minha surpresa, começou a falar do evento quando ouvíamos as músicas. Ela falava assim: com essa música a galera vai pirar no NOSSO evento!!! Acho que foi aí que o Sistren Reunion surgiu de fato! Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Acho que o mais feliz foi o próprio evento, hahaha!

Nosso principal foco foi dar um pontapé inicial pra incentivar as minas a participarem. Eu pensei que era a oportunidade única de dar esse “start”. Aproveitei o momento histórico que tava acontecendo no Brasil, além do momento histórico na cena em Recife e decidi que não ia adiar mais. As meninas tocaram pela primeira vez na vida e a gente conseguiu provar que temos capacidade, a galera dançou a noite inteira e só foram embora porque estávamos MUITO cansadas. A Erica Natuza sempre arrasa no mic e nas versões do LADO B mas a maioria das vezes fazia isso com homens. Nós conversamos bastante no outro dia, choramos e tudo… foi uma energia muito forte, foi emocionante demais ver as minas atrás dos toca-discos, foi emocionante demais tocar e cantar do lado de tantas minas (e APENAS minas), até o público tava MUITO feminino nesse dia. Foi muito poder. Mulher é FODA! O foco era esse, participação feminina… e conseguimos isso em todos os espaços, até no próprio público. Foi demais!

Feminine Hi-Fi #1

Feminine Hi-Fi #1

Com toda a certeza nós estamos fazendo história. Aqui a coisa andou muito rápido, esse evento foi um marco pra cena do Recife e imagino que os outros que ocorreram também tenham sido. Revolução é isso, quando algo muda rápido. E a gente tá brotando de todos os lugares!!!

Digamos que além do dia da mulher, sempre foi um sonho meu, independente da data. Mas, foi aproveitando a data e as movimentações que estavam ocorrendo que eu, finalmente, deixei de só pensar e passei a agir. E agora que passou tenho certeza que fiz certo. Muita coisa vai mudar a partir de hoje. Eu e a Isa já estamos com o projeto de nosso sound system feminino. Vão vir muitas coisas lindas por aí. Estamos empolgadas.”

Priscilla Delgado, She Loves, Fortaleza (CE)

“Programei junto com a minha irmã Bruna que a 3º edição da nossa celebração, Reggae a Vida com Amor, fosse em homenagem às mulheres, e coincidentemente o mês de março também é o mês de aniversário da Bruna. Março agora se eterniza cada vez mais em meu coração.

O especial “Women of Reggae” reuniu as seletoras de Fortaleza em uma só noite, foi a segunda vez que conseguimos realizar isso, na primeira ocasião foi no aniversário de um ano do projeto She Loves, outra noite histórica. She Loves é um projeto criado por duas produtoras culturais atuantes em Fortaleza. Idealizamos a festa Reggae a Vida com Amor a partir de uma campanha que iniciamos de arrecadação de alimentos e roupas para algumas comunidades, desde então em toda edição abordamos uma temática social diferente. Na do mês de março promovemos a campanha MAIS UM DIA em prol da doação de sangue e plaquetas, luta que iniciamos quando a Bruna mais precisava, então foi quando abraçamos a causa não só por ela, mas por todos que precisam de uma chance para viver.

Manas de Fortaleza - foto: acervo do projeto

Manas de Fortaleza – foto: acervo do projeto

O termo “Primavera do Reggae” simplifica bem o que iniciamos aqui no Brasil, espero que se espalhe por outras cidades e que outros movimentos abracem a ideia. Aqui em Fortaleza as mulheres conquistaram espaço pelo diferencial de organização que elas possuem e não porque alguém deu oportunidade a nós, corremos atrás, estudamos, somos antes de tudo frequentadoras da cena, algumas trabalham com produção cultural.

Homenageamos todas as mulheres em uma exposição fotográfica que fizeram história na música reggae, mas também todas aquelas que lutaram pelos direitos das mulheres. A celebração que realizamos foi toda dedicada em memória da Bruna, ela completaria um dia depois 25 anos e faz um pouco mais de um mês que ela nos deixou nesse plano, homenagem mais que justa pra ela que junto comigo idealizou o primeiro projeto local de discotecagem somente de mulheres. O empoderamento feminino se faz necessário em todos os nossos atos do dia a dia, se respiramos e vivemos do reggae, é lá onde devemos concentrar também a nossa luta. Espero que agora possamos fazer alguns intercâmbios, tenho muita vontade de trazer a mulherada de fora pra tocar aqui na terrinha.”

Luciana Tutti, Sound Sisters, Sao Carlos (SP)

“Desde agosto de 2013 que temos o Sistema de Som e a partir daí sempre fizemos eventos com diversos convidados. Fizemos baile em homenagem ao mês da mulher em 2014 e 2015 mas esse ano sentimos a necessidade de dar um nome, com o qual pudéssemos através dele ressaltar a força de nossas irmãs na militância do reggae, pois ainda somos poucas mulheres fazendo baile se formos comparar com o tanto de homens que vemos na cena, então decidimos fazer o evento Ômega Powah em março, pois desde 2014 promovemos bailes em março para homenagear o mês da mulher ressaltando nos flyers *Especial Mês de Março*.

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O grande motivo foi e continua sendo a luta da mulher, e devido a tantos acontecimentos de luta pelo empoderamento feminino não podíamos deixar de mostrar que tem mulher fazendo Sound System no interior de São Paulo. Um dos objetivos é divulgar nosso Sound, pois como único Sound System feminino do Brasil temos o dever fazer um evento só feminino, e o foco foi mostrar simplesmente que nós mulheres também agimos e estamos aí sozinhas trilhando nosso caminho ao lado de homens e mulheres.

Demonstramos em nosso trabalho que as mulheres estão ganhando força cada vez mais e criando coragem de fazer de forma mais independente seus eventos, indo atrás e buscando fazer os bailes correndo junto das irmãs pra realizar algo mesmo que sozinha, ou em conjunto, mas que une forças pra fazer, sendo assim desse forma independente no quesito de não depender de convite de outros Sound para tocar. O grande significado é que estamos ganhando forças, estudando, aprendendo, agindo, propagando a cultura Sound System e fazendo o nosso corre.

O nosso foco também foi divulgar o trabalho de nossa irmã de Franca, Sistah Floradas, que tocou pela primeira vez em São Carlos. Acho que agora não tem mais como mulher ser vista como rara na cena, pois os eventos estão aí para mostrar que estamos agindo independente de convites, organizando e trampando e que claro: tem mulher no Sound System! (Palavras minha e da Pê).”

Feminine Hi-Fi #1 - foto: Mel Sirks

Feminine Hi-Fi #1 – foto: Mel Sirks

Jordanna Thiellys, Fortaleza, CE

“Comecei a discotecar em 2015, tem apenas um ano que transmito o que gosto. Ainda não cheguei a produzir eventos, apenas somar com quem produz, mas posso afirmar que, sem sombra de dúvidas, é extremamente satisfatório contribuir para uma evolução tão importante para todas nós mulheres.

Creio que assim como as outras meninas, o propósito é repassar o que aprendemos de forma firme na luta a favor dos nossos direitos. Eu, particularmente, me sinto feliz em poder transmitir minha alegria em discotecar, seja em um evento repleto de mulheres ou não, eu respiro reggae. Claro que nada melhor que estar ao lado das companheiras pro astral fluir melhor.

Acredito que a força feminina tem sido mais revigorada a cada dia e com esses eventos ocorrendo de forma simultânea a nossa confiança aumenta, resultando em bailes lindos.
Todos os eventos que participei neste mês de março foram surpreendentes, tanto pelo que senti quanto pela energia que recebi do público. Não tem coisa melhor do que tocar e receber vários elogios durante a sequência!

Sobre a homenagem à Bruna chega a ser bastante emocionante, arrepiante, um mix de emoção. Eu não vou exalar tristeza (embora isso exista em forma de saudade), quero dizer o quanto fui feliz sendo convidada para estar ao lado das sisters na celebração mais linda que existe em Fortaleza que é #ReggaeAVidaComAmor. A Bruna vive em nós e estar ali dividindo isso da forma que ela mais gostava, é sem explicação, ultrapassa o limite das palavras capazes de definir.

E é como eu disse antes, estamos cada vez mais fortes, unidas e confiantes do que somos capazes, daqui em diante a tendência é apenas aumentar. O reggae merece a mulherada mostrando o que sabe fazer!”

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